quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O Conde de Monte Cristo


Daí que eu terminei de ler O Conde de Monte Cristo um dia desses.

Achei apenas sensacional. Existem várias versões em filme desde 1922 até 2002, e eu só assisti esse último (o com o Jim Caviezel). É muito bom, mas eles tiveram que cortar quilos de informação pra fazer a história caber em duas horas. Em 800 páginas de livro (livros, na verdade) você tem a dimensão certa da vingança de Edmond Dantès.


(Jim Caviezel sendo lindo, mesmo todo fodido)

O livro acompanha Dantès por vinte e três anos, desde os eventos anteriores à sua prisão injusta até o final da sua vingança. Depois de retornar à Paris com o misterioso título de Conde de Monte Cristo, Dantès - que, mais para o final, começa a se referir a si mesmo como um instrumento da ira de deus, ou como o próprio deus - decide arrancar o mal pela raiz. Como? Se vingando dos homens que provocaram a sua prisão. Só isso? Não, pra garantir é melhor destruir a família toda de cada um deles e não deixar pedra sobre pedra na distinta alta sociedade parisiense. The ultimate vendetta.

O preconceitozinho que eu tinha com o livro antes de lê-lo tinha a ver com 1. o gênero, 2. a Martin Claret e 3. a preguiça. Começando pelo final, a preguiça eu venci no dia em que resolvi pegar pra ler, e a partir daí não precisei mais fazer esforço nenhum pra terminar - na verdade fiquei até com pena de ter que acabar. A Martin Claret eu também tive que superar, mas, se isso ajuda, a tradução deles é a de domínio público. Tem errinhos e coisas estranhas, mas dá pra engolir. E, por fim, o gênero aventura. Costumo achar divertido em filmes, mas meio boring em literatura se não estiver misturado com outras coisas. Felizmente a maioria dos livros não é um bloco único de gênero, então todos podemos ser felizes.

O Conde de Monte Cristo não é aventura no sentido Indiana Jones da coisa; não é como se houvesse cavaleiros de capa e espada duelando o tempo todo, que é o tipo de coisa que me faria suspirar profundamente de tédio. Na verdade, ele tem muito mais ~momentos de reflexão~ do que eu esperava. 

(existem todos os spoilers do mundo do parágrafo abaixo em diante)

Torcer na ficção por coisas e atitudes que se repudiaria (ou fingiria repudiar) na vida real acontece o tempo todo. Dantès não é um herói clássico e bonzinho; ele quer vingança, ele muda drasticamente e faz disso o objetivo da sua vida, até quase a loucura (lembra do instrumento da ira de deus? isso aí é Dantès já começando a duvidar da sua sanidade). Ele destrói a vida de gente inocente só porque estão no seu caminho, planeja, se infiltra e executa tudo minuciosamente. E, ainda assim, depois de dedicar a sua vida à vingança, à medida que o livro avança ele começa a se questionar se não teria, afinal, passado do ponto. O motivo? O amor. Dele? Não, o de Valentine e Maximiliano.

Nesse ponto eu preciso falar das mulheres do livro, que não escapa de ter lá a sua dose de machismo e racismo. No entanto, apesar de a história girar em torno de homens, eu achei que ela até tem uma participação de mulheres mais forte do que seria de se esperar. Valentine, a Sra. de Villefort, Eugènie, Mercèdes e Haydèe são, cada a uma a seu modo, personagens fortes e multi-dimensionais.

Valentine é uma mocinha clássica do Romantismo, pura, recatada e que não consegue nem pensar em desobedecer as ordens do pai, ainda que isso signifique o sofrimento de se casar com um homem que mal conhece e ainda estando apaixonada por outro. Odiada pela madrasta, seu único refúgio é o avô, o Sr. de Noirtier, que depois de uma apoplexia (derrame?) ficou completamente paralisado, podendo mover apenas os olhos (aliás, o sistema usado por ele e Valentine para se comunicar é uma versão mais primitiva da usada em O Escafandro e a Borboleta). 

A Sra. de Villefort é meio virada das ideias e é a principal serial killer do livro, depois do próprio Monte Cristo. A diferença é que pra ela deram o clichê do veneno (“uma arma tipicamente feminina”) e a motivação do dinheiro; Valentine, por causa da fortuna da sua mãe E do avô, ia ficar muito mais rica do que o seu meio-irmão. O final da Sra. de Villefort é o momento em que o Conde começa a se questionar se está sendo justo ou não.

Eugènie é um caso à parte. Me impressionou o fato de ela não ter sido pintada como um “mal exemplo”.A filha do Barão de Danglars, banqueiro e um dos principais alvos do Conde, é tudo o que se espera que uma “boa filha e boa mulher” não seja. Ela é firme e inteligente, não quer se casar, não quer cuidar da casa, não quer se preocupar com joias e beleza. Só quer ser livre e tocar piano, ser artista. E nada disso é pintado como algo essencialmente ruim. Seu final é o meu preferido: depois de fugir do próprio casamento (arranjado pelo Conde, obviamente, que também planejou a prisão do noivo - meio-irmão da noiva, olha o nível da trollagem - com um timing ótimo que permitiu a liberdade de Eugènie e, de quebra, a infelicidade da família Danglars), ela se veste de homem para poder passar da fronteira, taca uma tesoura nas tranças e foge com a amante amiga Srta. D’Armilly. Mortas de felizes, as duas partem para a Bélgica numa carruagem.

O filme foi que me iludiu, me fazendo pensar que no final o Conde e Mercèdes ficavam juntos de novo e que o Albert era filho deles. Erm, não. Isso aí foi licença poética, e das grandes. Mercèdes e o filho não têm o mais feliz dos finais. Não gostei muito do que foi feito da Mercèdes do segundo volume em diante, mas isso talvez tenha um pouco a ver com o fato de eu estava esperando demais dela.

Pronto, prometo que vou parar de falar desse livro, hahaha. Mas recomendo mesmo, pelo desenvolvimento do Edmond e pela complexidade da trama. Ainda vou rever o filme e ver o que fizeram dele.

Um comentário:

Ferfa disse...

Faz séculos que vi esse filme (acho que pela época da lançamento), mas lembro que amei, achei puro bafo, etc. O livro nunca pensei em ler, hmm.